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Cláudio
Seto*
Há
muitos e muitos anos, havia, no litoral norte do Japão, uma aldeia
muito grande de nativos Ainus. Esse povoado estava localizado numa região
rica em caça e pesca. Era um local de abundância, com vários
tipos de alimentos. Mas nem sempre foi assim. Houve época em que
a fome se instalou nessa localidade e, aos poucos, os peixes foram rareando,
os alces desaparecendo e os vegetais comestíveis secando. Em conseqüência
disso, os habitantes foram morrendo fome, restando somente poucos ainus
e, entre eles, uma moça e um rapaz que eram filhos do chefe da
aldeia.
A
moça, que era a mais velha dos dois, disse em certa ocasião:
Sou uma mulher, portanto, se eu morrer, pouco importa; mas você,
sendo homem, é o herdeiro da família. Portanto, pegue essa
bolsa contendo todo o tesouro da família e saia à procura
de alimento. Se permanecer aqui, será morte certa. Vá, encontre
alimento e coma bastante para não morrer. Com isso, deve dar continuidade
a nossa raça. Eu ficarei velando pelo espírito de nosso
povo e esperando a sua volta.
Assim
dizendo, entregou uma bolsa de couro de veado contendo o tesouro para
o irmão. Então, o rapaz saiu caminhando pela longa praia.
Depois de andar por vários dias, avistou uma paisagem agradável
contendo uma cabana. Ao aproximar-se da cabana, percebeu que, perto dela,
havia uma grande carcaça de baleia. Na porta da cabana, havia um
homem de aparência divina e ao lado dele, surgiu uma jovem e bela
mulher, vestida de preto, que parecia ser uma deusa.
O
homem deu boas-vindas e convidou o rapaz a entrar. Em seguida, foi servido
carne de baleia cozida e o jovem se deleitou, depois de uma longa temporada
de fome. Mas o estranho daquela hospitalidade era que a mulher nunca olhava
para o lado onde estava o moço.
Depois
de comer bastante, o jovem abriu a bolsa que tinha recebido de sua irmã,
de onde retirou o tesouro e ofereceu ao dono da casa.
Gostaria que aceitasse esse tesouro como pagamento ao alimento que recebi.
Oh! São tesouros lindos e muitos valiosos disse o homem,
examinando minuciosamente as peças. Depois, tornou a elogiar o
tesouro e comentou:
Não posso receber pagamento em troca de alimentos. Mas posso trocá-lo
com os meus tesouros. Vou buscar meu tesouro que está guardado
numa casa que tenho aqui perto. Espere-me aqui e pode comer quanto quiser
de carne de baleia.
Dito
isso, o homem saiu. Então, na cabana, ficaram o rapaz e a mulher
de preto. Passado algum tempo, a mulher voltou-se para o rapaz e disse:
Jovem, ouça-me com atenção. Sou a Deusa dos Alimentos.
E o meu marido é o Deus Dragão. Não existe ninguém
mais ciumento do que ele, por isso, não olhei para seu lado para
não causar ciumeira. Desde que me casei com ele, deixei de produzir
alimentos, pois ele tem ciúme de que eu trabalhe para o bem do
povo das aldeias desta região.
Então é por isso que em nossa aldeia todos estão
morrendo de fome.
Oh! Sinto muito, jamais desejei isso. Meu prazer é ver os seres
viventes felizes e satisfeitos. Mas meu marido é ciumento demais
para permitir que eu produza alimentos para todos.
Será que não existe uma maneira de você fazer a nossa
aldeia novamente farta? Por favor, tem que ser urgente, pois restam poucas
pessoas com vida.
Continuando casada com meu marido, isso é impossível. Porém,
se ele me deixar partir, tudo é possível.
É seu desejo separar-se dele?
Eu não suporto mais seu ciúme. O tesouro que você
trouxe nem os deuses têm igual. Por isso meu marido ficou observando
minuciosamente as peças. Ele vai falsificar cada peça e
trazer um tesouro de imitação para trocar com o seu. Porém,
você deve dizer que não quer fazer a troca de tesouros, e
sim comprar a mulher dele com seu tesouro.
Acha que isso vai dar certo?
Sim, ele é tão ciumento que logo vai imaginar que houve
algo entre nós na sua ausência. Então, vai me abandonar
com a cabeça quente. Mais tarde, poderemos nos casar e nunca mais
vai faltar alimento em sua aldeia.
Após
alguns dias de ausência, o homem de aparência divina retornou
à cabana com um saco cheio de tesouro. Então, foi logo propondo
a troca de tesouros.
Ei, rapaz, eu trouxe os meus tesouros para trocar com os seus.
Eu aprecio as peças de ouro, porém, aprecio muito mais a
sua esposa do que qualquer tesouro. Gostaria de comprar sua esposa em
troca de meu tesouro.
O
Deus Dragão ficou com aparência atordoada e um ensurdecedor
ribombar de trovões explodiu sobre a cabana. Com o estrondo, a
cabana ficou em pedaços. Quando o rapaz recuperou os sentidos,
lá estavam a deusa e o tesouro. O Deus Dragão havia desaparecido.
Então,
a mulher lhe disse:
Meu marido foi embora muito raivoso e fez toda a barulheira de ciúme
ao saber que desejamos ficar juntos.
Assim,
o rapaz e a Deusa dos Alimentos se casaram e nunca mais faltou comida
naquela região.
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